Extrapolando

Vitor Dornelles
2 min readFeb 18, 2023

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Imagem por Vitor Dornelles / Stable Diffusion

Quão bons vocês são em EXTRAPOLAR? Alguns anos atrás eu descobri um caroço no meu pulso. Daí aquilo obviamente só podia ser um CÂNCER ÓSSEO, resultado da metástase de um outro câncer OCULTO, e eu teria apenas alguns meses de vida, durante os quais teria que fazer algumas coisas. Como, por exemplo, criar últimas boas memórias com a minha família e os meus amigos e, mais importante ainda, gravar inúmeros vídeos para a minha filha, de modo a estar presente em todos os momentos importantes do futuro dela, meio como naquele filme do Michael Keaton.

E eu faria vídeos dando conselhos para todas as fases, vídeos para os momentos difíceis em que ela precisasse apenas de colo, vídeos para quando ela fosse adolescente, vídeos para quando (se) ela se casasse, quando (se) tivesse filhos, ou para suas grandes conquistas. E, claro, um vídeo para cada aniversário dela. Por via das dúvidas, eu gravaria até os 150 anos, pois nunca se sabe quanto tempo estas novas gerações vão viver. E aí eu poderia partir um pouco mais tranquilo.

Ou então meu caroço não era o resultado de uma metástase, mas apenas um câncer ósseo localizado, e eu teria APENAS QUE AMPUTAR A MINHA MÃO! Infelizmente, a mão esquerda, que é que eu uso para escrever. A partir daí, agora maneta, eu dedicaria minha vida a uma nova missão: criar próteses de mãos! Mais eficientes e, importante, mais baratas! Com a vantagem de que eu poderia testá-las em mim mesmo! Sendo já designer gráfico, eu teria ao menos algumas noções iniciais que me ajudariam na nova empreitada, mas claro que precisaria de muito estudo.

E, de repente, a perda da minha mão se converteria num novo sentido de vida, e eu poderia, finalmente, dar uma pequena contribuição para tornar o mundo melhor e me sentir um pouco menos inútil.

Mas a realidade é que meu caroço não era nada disso. Era, de fato, um tumor. Mas benigno. O que chamam de quisto, acho. E o próprio ortopedista que me atendeu, um senhor com uma cara muito sábia, tinha um nas costas das mãos há mais de 40 anos. “E não precisa, operar, não. Só se ele começar a pressionar algum tendão e você tiver dor, mas isso aí é comum, deve ser lesão de esforço repetitivo. Não vai fazer diferença na sua vida”, ele disse, mais ou menos desse jeito.

Na época o caroço estava bem proeminente, mas o médico me disse que ele teria fases. Às vezes ele ficaria menos visível, às vezes mais. Atualmente, ele está bem escondido. Não sei se de repente ele se desfez, nem sei se isso é possível. Mas é melhor parar por aqui, porque eu sou muito bom em extrapolar.

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