Sietske

Vitor Dornelles
4 min readJan 14, 2023

--

Os nomes "Sietske" e "Klaas" escritos em caligrafia rebuscada, um embaixo do outro, em papel envelhecido pelo tempo
Sietske, Klaas. Fonte: Censo de Rotterdam de 1880.

O Familysearch me mandou e-mail dizendo que tinha encontrado um registro de um antepassado meu. Desta vez não era algum primo de segundo grau do tio do meu pentavô, mas uma antepassada direta: uma das minhas tetravós holandesas, chamada Siestke.

O registro em si era de um censo de Rotterdam de 1880. Nele, constam o endereço em que minha tetravó vivia com seu filho Klaas, que vem a ser meu trisavô e pai do meu bisavô (que veio para o Brasil no início do século XX). Mas achei estranho só ter eles dois.

A imagem contém o topo de uma tabela com algumas categorias escritas em holandês, como "Nome de Família" e "Nome", entre outros, também em papel envelhecido pelo tempo
Parte do cabeçalho do Censo de Rotterdam de 1880.

Investigando a árvore genealógica, descobri que meu tetravô, Egbert Wijbes, marido de Sietske, morrera em 1869, ou seja, 11 anos antes deste censo. Sietske e Egbert se casaram em 1861, e já em 1862 tiveram sua primeira filha: Rinske. Dois anos depois, nasceu meu trisavô Klaas.

Em 1866, nasceu mais um filho, chamado Boudewijn. Aí a coisa começa a ficar triste: Cerca de 2 meses depois de Boudewijn nascer, Rinske morreu, pouco antes de completar 4 anos — e faltando exatamente um mês para o aniversário de 2 anos de Klaas, meu trisavô.

Imaginem a barra. Embora a mortalidade infantil ainda fosse bem alta nessa época, nunca foi fácil. Porém, em 1868 veio um pouco de alegria para esta família, com o nascimento do caçula Pieter. A alegria não durou muito, contudo. No início de 1869, como eu já tinha antecipado alguns parágrafos acima, meu tetravô Egbert morreu.

Assim, Sietske ficou sozinha com 3 meninos para criar: Klaas, com quase 5 anos; Boudewijn, com quase 3; e Pieter, ainda um bebê de 10 meses. Mas isso também não durou muito.

Vista aérea do centro de Rotterdam por volta de 1860. Foto em preto e branco, com muitas casinhas antigas.
O centro de Rotterdam por volta de 1860.

Em dezembro de 1869, foi a vez de Boudewijn falecer, com apenas 3 anos e meio. Restavam agora Klaas, de 5, e o pequeno Pieter, com 1 ano. Até que em 1871 veio a nova tragédia: Pieter morreu em novembro, com apenas 3 anos. Meu trisavô Klaas tinha 7.

E foi assim que, no censo de Rotterdam de 1880, minha tetravó Sietske e meu trisavô Klaas foram registrados como os únicos moradores da casa de número 131 da Crispijnlaan. Meu trisavô tinha 16 anos, e minha tetravó, 49. Pieter morrera já há 9 anos. Muito tempo depois, na Segunda Guerra Mundial, a casa foi destruída pelos bombardeios nazistas.

Vista aérea em preto e branco da cidade de Rotterdam em escombros. O único prédio mais ou menos inteiro é uma igreja, no canto superior esquerdo da imagem.
A cidade de Rotterdam destruída pelo bombardeio alemão. Meus antepassados moravam perto da maior construção da foto, uma igreja que resiste até os dias de hoje.

Meu trisavô acabou vivendo até 1901, e teve tempo de ter seis filhos, entre eles meu bisavô Johannes. Sua primogênita, nascida em 1888, recebeu um nome em homenagem à avó: Sietske. Ela, porém, acabou morrendo com apenas 5 anos. Tenho ainda informações de que Klaas chegou a trabalhar como padeiro e também como uma espécie de faz-tudo. Klaas, porém, não chegou a vir para o Brasil. Morreu antes disso. Minha trisavó Elizabeth acabou se casando de novo e veio para cá com o novo marido, que também tinha filhos.

Diz meu pai que meu bisavô se recusava a falar do padrasto. Ele era violento, e parece que chegou a jogar uma pia inteira (!?) nas pernas dele, o que o deixou com sequelas pelo resto vida. Já minha tetravó Sietske morreu em 1890, e chegou a conhecer ao menos duas netas: sua homônima Sietske e a pequena Johanna, que nasceu cerca de 2 meses antes de sua morte (e que também veio a falecer ainda bebê, poucos meses depois da morte da avó).

Foto em preto de branco de jovem, branco, cabelo escuro, com uma certa orelha de abano e o que talvez seja uma cicatriz na sobrancelha esquerda, posa para a foto de terno e gravata, cara séria, sem sorrir, com um lenço no bolso. O braço esquerdo está dobrado e o direito estendido. Ao lado e um pouco à frente dele, também do lado esquerdo, repousa sobre um banco um chapéu, que por sua vez está em cima de uma espécie de lenço. Ao fundo, a pintura de uma paisagem indefinida.
Meu bisavô Johannes, com cerca de 22 anos.

A maior parte desses eventos aconteceu há mais de 150 anos, mas graças à internet, à invenção do scanner, ao pioneirismo em arquivologia dos holandeses, à minha curiosidade e a todos que sobreviveram nesta corrente, eu estou aqui para contar essa história.

A árvore genealógica de Sietske, borrada para proteger os dados.

--

--